Serão os 137 ensaios clínicos submetidos em 2017 suficientes para Portugal? Serão os ensaios clínicos relevantes para um país com a dimensão de Portugal? Existirão vantagens para a população, para os profissionais e para a conjetura nacional?

Nos dias que correm, a par do aumento da esperança média de vida está a verificar-se o aparecimento de novas doenças, em parte devido ao envelhecimento da população. Isto reflete-se na necessidade de se criarem novos medicamentos, seguros e eficazes. Mas para que esses novos medicamentos sejam desenvolvidos, é necessário, antes, que sejam realizados ensaios clínicos, essenciais para o processo de autorização da sua introdução no mercado.

Para melhor compreender a realidade nacional no que a esta tema diz respeito, a consultora PwC elaborou o estudo “Ensaios Clínicos em Portugal”, realizado para a APIFARMA – Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica, que aborda a importância dos ensaios clínicos em termos económicos, identifica as principais barreiras ao seu desenvolvimento e apresenta, tendo em conta as melhores práticas a nível internacional, um conjunto de propostas para ultrapassar as barreiras identificadas.

 

Quais as barreiras atualmente existentes, e como ultrapassá-las?

O estudo identificou barreiras em quatro dimensões distintas: política e estratégica; ao nível da organização e das infraestruturas; no que diz respeito aos incentivos, formação e carreira; e a barreira da tecnologia e informação.

De acordo com João de Almeida Lopes, presidente da direção da APIFARMA, “é fundamental atuar em dois vetores. Avançar para a priorização de investimento em I&D e criar programas de atração de investimento farmacêutico, e, ao mesmo tempo, estabelecer Portugal como local de referência para ensaios clínicos”. Acrescenta, ainda, que “com a criação de políticas de incentivo corretas e direcionadas podemos criar condições para reforçar a realização de investigação em Saúde orientada para o doente e, simultaneamente, contribuir de forma sustentável para o progresso científico e para a promoção da economia do conhecimento em Portugal”.

Portugal tem “condições excecionais para se tornar uma referência internacional no que respeita à investigação clínica, nomeadamente o nível de conhecimento e preparação dos investigadores, mas “apresenta várias barreiras que têm contribuído para a perda contínua de competitividade. Revela-se essencial identificar e implementar um conjunto de medidas que permitam a recuperação do valor que tem sido perdido nos últimos anos”, reforça Cláudia Rocha, advisory partner da PwC.

 

Os benefícios dos ensaios clínicos

Segundo o estudo da Apifarma, os ensaios clínicos proporcionam um conjunto alargado de benefícios, diretos e indiretos, para o desenvolvimento social e económico do país. Em primeiro lugar, para o doente – permitem o acesso precoce e gratuito a medicamentos, representam um benefício para futuros doentes, permitem a melhoria dos cuidados assistenciais e têm um potencial para aumentar a qualidade e/ou tempo de vida do doente.

No campo económico, são uma fonte de criação de emprego e criação de valor para outras indústrias, atraem investimento, representam uma redução da despesa pública e contribuem para a sustentabilidade do SNS. O impacto económico total da atividade na economia foi estimado em cerca de 87 milhões de euros, e cada euro investido na atividade de ensaios clínicos gera um retorno de 1.99 euros na economia portuguesa.

Para a comunidade científica, os ensaios permitem reter talento, o desenvolvimento de equipas de investigação, o aumento do conhecimento científico e o estabelecimento de redes de investigação nacionais e internacionais.

Em Portugal, entre os principais stakeholders envolvidos nos ensaios clínicos encontram-se os doentes, os promotores, as entidades reguladoras, as administrações hospitalares, os centros de ensaio, as equipas de investigação. Apesar de terem sido dados alguns passos no sentido de promover a investigação clínica, quando comparado com outros países de dimensão semelhante ou mesmo inferior, Portugal ainda tem potencial de crescimento, apresentando uma diferença de até 3.7x entre o número de ensaios clínicos submetidos por milhão de habitante.

Podem ter acesso ao estudo na íntegra aqui.