Pensei bastante antes de escrever este artigo e o principal fator que me estava a impedir de o fazer era o preconceito. O medo do preconceito, do que as outras pessoas iam pensar sobre mim enquanto profissional e o tipo de julgamento que iriam fazer sobre a minha competência. Mas eventualmente percebi que, enquanto Psicóloga Clínica e profissional de HR, este meu medo estava a contribuir para esse mesmo preconceito. E afinal, a preconceituosa era eu.


Exaustão vs Burnout. As diferenças!

Por causa do confinamento e a obrigatoriedade do teletrabalho, o tema do Burnout tem sido cada vez mais falado. Mas importa distinguir exaustão (ou o típico “esgotamento”) de burnout – são coisas diferentes que se refletem na pessoa e na forma como olha o trabalho de formas diferentes. O Burnout é o culminar de uma exaustão e stress (sejam emocionais e/ou físicos) crónicos e prolongados no tempo, para os quais a pessoa sente que não tem ferramentas para ultrapassar. Ou, cientificamente falando, “uma resposta prolongada a stressores físicos e emocionais crónicos que culminam em exaustão e sentimentos de ineficácia” (Maslach et al., 2001); “uma resposta à pressão emocional crónica resultante do envolvimento intenso com outras pessoas no meio laboral” (Teixeira, 2002).

O meu objetivo com este artigo – mais do que catártico e de libertação do peso – é o de desmistificar e alertar para este tipo de situações através do meu caso. Porque a teoria parece longínqua. Mas, quando escrita na primeira pessoa, através de um testemunho real, eventualmente torna-se mais fácil de chegar ao leitor e mais “relatable”.

Foi (muito!) dificil perceber o que se estava a passar comigo...

Todos os sinais passaram-me ao lado – mesmo a mim, que sou Psicóloga e exerço a profissão em paralelo aos Recursos Humanos. E foi difícil porque eu sempre me dediquei imenso ao trabalho, lidei bem com o stress e sei que a minha performance melhora sob pressão. Mais: adoro o que faço, estou num projeto incrível, trabalho com e giro uma equipa de pessoas fantásticas e muito boas nos que fazem, o negócio está a crescer, e o desafio é tudo o que eu sempre quis!

Ou seja, não comecei por sentir falta de motivação ou de criatividade, ou deixei de ter vontade de trabalhar. Pelo contrário, eu quis sempre mais: mais responsabilidade, mais projetos, mais desafios e, na verdade, talvez tenha sido esse o meu primeiro problema…

O primeiro sinal: o cansaço

A quantidade de trabalho – que já era grande quando entrei – começou a ser imensa a partir de Novembro e quando dei conta, já estava a trabalhar 70h por semana, semana após semana. E foi aí que vi o primeiro sinal: o cansaço – a tal exaustão crónica.

Não era cansaço psicológico (não no início, pelo menos), mas era o corpo a acusar o desgaste. Por estar a trabalhar remotamente para dois fusos horários muito diferentes (Portugal e Filipinas), o meu dia tendia a começar mais cedo do que as 9:00 e facilmente acabava perto ou depois da meia noite. As pausas do almoço e jantar eram os “minutos santos” do dia em que eu me levantava e aquecia a comida que mandava vir (porque deixei de ter tempo de cozinhar), comia em pé e a andar pela casa, ou aproveitava para tomar banho. Sim, porque nas 24h do dia, eram só 2 as que não estava sentada ao computador, ou deitada a dormir.

O segundo sintoma: o sentimento de incapacidade

Eu trabalhava imensas horas e sentia que nunca ia ser capaz de conseguir fazer todo o meu trabalho. Tinha reuniões (online) o dia todo, e às seis parava finalmente para “começar a trabalhar”, responder a emails e às mensagens privadas no slack que me tinham mandado no início do dia (ou no início da semana, dependendo da prioridade). Tinha os meus colaboradores com preocupações ou pedidos e eu não estava a conseguir dar resposta em tempo útil.

Dei por mim a ligar a candidatos depois das oito da noite – e sim, isto é pouco profissional da minha parte e nem sequer representa o que a minha empresa procura incutir nos (atuais e futuros) colaboradores. Eu preparava as reuniões do dia seguinte depois das dez, porque não conseguia ir dormir sem ter os slides prontos para não fazer má figura na primeira reunião do dia seguinte. O meu namorado chamava-me para jantar. Eu dizia “já vou”, apelando à sua compreensão a cada 5 minutos com um “está quase!”. Dia após dia. E tudo me parecia demasiado, mesmo as coisas que para mim deveriam ser “peanuts” e que eu já tinha feito mil vezes.

Sentia-me incompetente em todas as facetas da minha vida. Já não era só no trabalho. Era a minha relação pessoal.

Era nas chamadas que eu não fazia aos meus pais e aos meus avós. Era nas mensagens dos amigos no whatsapp que ficavam por ler porque eu não “tinha cabeça”. Era no meu auto-cuidado, no meu tempo para mim, para fazer outras mil e uma coisas ou para não fazer nada de todo.

E com isso veio o pessimismo e o criticismo. Porque a espiral negativa impedia-me de ver, valorizar e festejar o lado bom e todos os feitos incríveis que estava a conseguir alcançar ao longo do tempo. A lista de “to dos” que sobrava para o dia seguinte era tão grande que parecia que eu não tinha feito nada. E que raio de profissional era eu? Comecei a questionar-me: o meu papel na empresa, a minha competência, a minha capacidade, o meu profissionalismo.

Bem-vindos à Ansiedade e à Depressão.

Comecei a bloquear. Houve momentos em que cheguei a não conseguir tomar decisões. Olhava para a minha agenda e só tinha vontade de fugir para não ter de lidar com tantas reuniões, com tantas pessoas, com tantos pedidos. E como sou mais introvertida e o isolamento social da quarentena não me afetou assim tanto, nem reparei como tinha deixado de falar com outras pessoas fora do trabalho, no quão isolada eu me tinha tornado. E isolei-me do Mundo mas isolei-me de mim também.

Pode parecer um paradoxo, mas para evitar debater-me com esta realidade e com a quantidade de sentimentos cá dentro, continuava a trabalhar e a ignorar todos os sinais.

Até que um dia tive de parar.

Tive aquilo que, agora reconheço ter sido, um ataque de ansiedade depois de uma reunião que me “paralisou” durante umas horas. E foi aí que percebi que eu ia precisar de ajuda. E não, não era só ajuda psicológica, era também ajuda farmacológica e daí ter consultado uma psiquiatra.

Comecei a fazer medicação e eventualmente acabei por ter de meter baixa.

Sou psicóloga, trabalho em HR mas sou só uma pessoa normal e estive de baixa. Aproveitei o tempo para desligar o mais que pude, para voltar a sair de casa. O S. Pedro ajudou e passei imenso tempo a dar caminhadas ao ar livre, ou simplesmente a dormir ao sol (na praia ou no jardim). As esplanadas abriram, por isso gastar muito dinheiro em restaurantes e gelatarias – comi tudo o que me apeteceu sem pensar na linha. Brinquei com o meu gato, fiz picnics na hora do almoço com o meu namorado, lavei o carro, arrumei a casa, dormi (muuuito), vi séries e documentários, voltei a ler e a meditar e tornei-me vegetariana.

Eis o que aprendi nas várias semanas em que estive fora

  1. Perdoei-me e aceitei – eu também tenho direito a não estar bem.
  2. Há limites – eu tenho os meus e tenho de ser eu a geri-los.
  3. Saber dizer que não é um super poder que pode ser treinado – não me torna mais fraca e, pelo contrário, honra-me enquanto pessoa e favorece o meu bem estar.
  4. Há mais do que trabalho – eu já sabia isto (ou soube no passado) mas tive de reaprender.
  5. Eu sou a coisa mais importante da minha vida e preciso de tempo para mim.

Foi, e ainda está a ser, um processo de importante aprendizagem para mim. Sei que regressar ao trabalho não vai ser fácil, mas vai correr tudo bem. Porque vou sair desta mais forte, com a certeza de que sou uma pessoal e profissional diferente e com a esperança de que me tornarei mais rica e conhecedora de mim própria!

Conheçam a Bárbara e toda a sua história aqui!

Autoria de Bárbara Fonseca